O que que foi isso, o celular parou com o servisso de despertador ou fui eu que nao regulei ele direito? Tanto faz, o fato é que eu devia acordar as 5 e acordo as 7 – 15 minutos antes do trem sair pra Beijing. Um desastre, eu saio correndo, tenho a sorte de achar um taxi rápido e chego 2 minutos antes do trem sair, e ele sai pontualmente. Eu tive que pegar primeira classe, porque a segunda ja tava lotada faz semanas. Mas mesmo assim a passagem é barata – só na Mongólia, porque comprando na Europa custa bem mais. Na primeira classe só tem 2 camas por cabine, em vez de 4. E uma poltrona. Eu me sento na poltrona e tou contente que eu tou sozinho na cabine, mas daí entra um estudante mongol, dali a uns 5 minutos a cobradora traz mais um estudante mongol. Mas peraí, comé que tem 3 passageiros na minha cabine? Pela primeira vez na vida eu viajo de primeira classe e a cabine ja ta superlotada? E ainda por cima com 2 mongóis com os quais nao se pode conversar, a nao ser que se seja um mongol?

Nós passamos pelo deserto de Gobi, que é bem vazio. Bom, o fim de semana ja ta chegando, né. O pessoal que faz um tour por aqui diz que é bem interessante e variado, mas a regiao pela qual o trem passa nao tem nada de muito excitante, pelo menos de dia, e a noite eu nao vejo nada, que eu nao sou gato. Na fronteira la pela meia noite o trem fica parado 4 horas: tem que separar os vagoes, erguer os ditos cujos e botar um novo sistema de rodas embaixo, pra poder andar pelos trilhos chineses. A imigrassao da China nao da problema nenhum, você da o passaporte enquanto ta esperando a operassao toda, e meia hora depois ce recebe ele de volta, e ninguem pergunta nada. Milhoes de vezes mais facil do que passar pela fronteira dos Estados Unidos, que se diz a maior democracia do mundo. E agora o estudante mongol ta dormindo na minha cama, eu tiro ele de la, que eu paguei e ele provavelmente nao – nesses países eles nao vendem passagens quando nao tem mais lugar.

O trem passa por alguns povoados chineses com menos de 5 milhoes de habitantes e nao mais que algumas centenas de edificios – o construtor chinês nao fica refletindo qual vai ser o tamanho do prédio, a cor e a forma, ele reflete se vai construir uma dúzia ou duas. Daí a gente desce a serra, do planalto pra planície, uma paisagem bonita ao longo de um rio, daí a gente viaja mais ou menos uma hora e meia ao longo de edifícios e fábricas, e ja chega em Beijing, a capital do país de onde tudo vem hoje em dia, fora música boa e futebol. Eu pergunto onde eu posso cambiar dinheiro e um cara num guichê diz ‘change money?’, daí ele aponta pra diressao onde eu tenho que ir. Ele provavelmente queria dizer que eu tenho que atravessar a ponte, mas ele ainda nao sabe palavra tao difícil. Agora tem muito chinês que ja castiga um inglês, ou sabe pelo menos algumas palavras. Eles ja dizem ‘baibai’ quando se despedem, ja aprenderam que uma comunicassao com mímica é possível, e até entendem bem melhor estrangeiro falando chinês errado, o que praticamente sempre é o caso.

Beijing tem muitos edifícios imponentes, arquitetura arrojada, mas fora do centro ainda tem muitos bairros mais antigos com milhoes de ruelas, favelas a la chinesa por assim dizer. Tudo relativamente limpo, só um pouco caótico. E agora eu tou sentado na terrassa do bar do hotel pequeno mas legalzinho e ousso música brasileira, cantada por uma brasileira que canta em português, inglês, francês, espanhol e japonês. E isso na China – eles tao dando saltos quânticos por aqui.

Tem muita mulher bonita nesse país, é de endoidecer. A China tem o maior número de mulheres bonitas do mundo, o que nao é difícil com essa populassao toda. Mas eu acho que mesmo em termos per capita eles tem uma média muito boa, a nao ser, é claro, que o cara nao goste nem um pouquinho de asiática. A metade das mulheres tem um rabo de cavalo, a metade da metade restante tem penteado de indio (ou de príncipe encantado, você sabe, né, aquele penteado-pinico), e o resto tem de tudo. Carro só tem grande. Se o cara tem pouco dinheiro, vai com transporte público, bicicleta, bicicleta elétrica ou lambreta. O próximo passo é um carro grande, se as finansas permitirem. Mas parece que nenhum chinês quer ser visto com um Gol ou um Fiat Uno.

Eu vou parar num fastfood chinês, o Hot Pot. Claro que no chinês tem um nome bem diferente, que nem wang shei ching, mas isso eu nao posso ler. Eu só quero comer uma coisinha, mas eu quero pelo menos comer duas vezes por dia, que eu nao sei como vai ser na Coréia do Norte. Ou seja, eu quero uma sopa. Hot soup, como ta escrito na tradussao inglesa no cardapio. A garsonete pergunta o que mais eu quero. Nao, obrigado, a sopa ja basta. Ela insiste, aponta pros pratos de carne. Nao, uma sopa ta bom. E verduras? Nao, eu só quero a sopa! Carne? Ah, meu deus, ta bom vai, carne tambem. E verduras? Porra, será que essa mulher nao pode me deixar em paz? No fim ela desiste e vai pra cozinha. Ei, o que sao essas placas pretas na minha mesa? Até tem uns sinais exquisitos, uma escrita em cima, mas em chinês… daí vem um garson, liga o fogao e poe a panela com a sopa em cima. Ah, é fogao, elétrico… daí vem uns presuntos enrolados, uns molhos em pratinhos separados e uma concha com furos. Eu sirvo sopa no meu prato, daí o presunto e os molhos. Pouco antes de terminar, a garsonete passa de novo e morre de rir, o pessoal da mesa do lado tambem. A sopa nao era sopa, era pra eu cozinhar o presunto no molho e daí tirar com a concha e botar no meu prato, e depois os molhos por cima. Bom, tava bom assim mesmo, só o presunto tava meio gelado.